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A velhinha Jeová pode estar em qualquer lado, sem pedir autorização, batendo-nos à porta ou surpreendendo-nos ao virar da esquina, como deve acontecer com o humor.
É mexida mas baralhada, sendo muito bem capaz de se lembrar de todos os coleguinhas com que fez um piquenique na longínqua segunda classe, mas incapaz de encontrar os sapatos de tamanco grosso que na véspera guardou no frigorífico.
A nossa velhinha Jeová existe mesmo, lá para os lados de Estarreja. É uma simpática anciã, de joelho magro e camelídea marreca. Traz a ponta da combinação a espreitar debaixo da saia preta com cheiro a naftalina e, sob o braço de arame, alguns exemplares das revistas “O sentinela” e “Despertai”, acompanhando uma versão brasileira do Antigo Testamento, revestida a papel florido.
Fina como um alho, aproveita as suas rondas para vender os rissóis que ela própria prepara. Garante a catraiada da terra que, para os moldar, se socorre de uma técnica tão simples quanto infalível: pega num amorfo pedaço de massa com recheio de carne picada e dá-lhe forma com um único mas preciso golpe de sovaco, tirando partido da sua mais notável característica morfológica: axilas em forma de rissol.
A velhinha chegou a ter problemas com a comunidade Jeová da zona, por se fazer acompanhar do marido coxo nas suas visitas porta a porta. É que o facto de ter de o arrastar escadas acima sempre que um novo lanço se lhes apresentava retirava eficácia aos périplos evangelizadores.
Humilde tarefeira da seara de Jesus, a velhinha não perde uma oportunidade para tentar evangelizar a pequenada lá da terra. Para além de lhes mostrar livros com prados verdes e coelhinhos saltitantes, em que meninos de todas as raças dão as mãos, conta-lhes repetidamente a história do Noé e da sua arca de animais, episódio que levantou fundadas dúvidas ao “Spock”, um miúdo com orelhas de açucareiro e penetrante agudeza, que legitimamente se interrogou sobre as possibilidades de sobrevivência das espécies animais, perante a existência de um único par de exemplares por espécie. Então e se por acaso - interrogava-se o “Spock” - morresse por doença uma das duas girafas? E não equacionou ele as consequências da impiedosa cadeia alimentar!...

 
 
 
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A velhinha, na sua profícua acção evangelizadora, já converteu incréus.