Caminha a caminho do tribunal
   

 

Numa noite do já distante ano de 1995, durante a Semana do Caloiro da Universidade de Aveiro, J.S.F. (conhecido no meio universitário por Caminha) e o sobrinho-neto da velhinha decidiram optar pela festa de uma discoteca situada no “fígado” da cidade (nos arredores de Aveiro). Após se chegar à conclusão que o único meio de transporte disponível era a “Vespa” do sobrinho-neto e perante a contingência de apenas disporem de um único capacete, encetou-se o seguinte diálogo:
- E se levasses um tacho, Caminha? Parecendo que não, protege! – sugeriu o sobrinho-neto.
- Grande ideia! Vamos a minha casa buscar um!
(Já em casa do Caminha, na Rua da palmeira, nº10)
- Vai já este, que é da Paula! – retorquiu o Caminha.
- Olha para a cor do fundo… Preto Savímbi! Aposto que tem mais de 100 refugados no bucho. E já reparaste no tamanho? Leva, nas calmas, 50 doses de feijoada!
- Pois é, fica-me largo! Vou cortar os atilhos a este avental, prendo-os às asas do tacho e ato-os debaixo do queixo… E já agora visto o avental para me agasalhar, que lá fora está a choviscar.
- Que grande capacete, Caminha! Pareces um folar.

Uma vez chegados à discoteca, o tacho foi escondido no telhado, com o avental aninhado no seu interior. Após encanarem uns finos e assistirem à eleição da “Miss Caloira”, sobrinho e amigo decidem regressar. Chovia. Enfrentando a intempérie, fizeram-se à estrada, um de capacete na cabeça e o outro de avental vestido e tacho na nuca, solidamente preso com os improvisados atilhos.
Já perto de Aveiro, por volta das 5 da manhã, param num sinal vermelho. E é nessa altura que um carro-patrulha da PSP faz inversão de marcha na direcção dos dois motociclistas, certamente alertado pelo tacho cor-de-laranja que ornamentava o crânio do pendura. Cava!- pensou o sobrinho-neto, ignorando o sinal vermelho (que naquela altura lhe pareceu mais garrido ainda) e arrancando, decidido, em direcção a um canavial.
-Foge para o meio das canas, Caminha! – ordenou, em desespero de causa o condutor da Vespa.
Tarde demais. Proferidas que foram as palavras já os máximos do carro-patrulha “encadeeiravam” os fugitivos. O sobrinho-neto da velhinha jamais esquecerá a silhueta do seu companheiro de fuga de braços no ar, avental vestido, tacho na cabeça, atilhos quase na boca e ar desconsolado, a constatar:
- Pronto! Fomos apanhados!
Expectantes e receosos, observaram o agente sentado no “lugar do morto” a abrir lentamente a janela, para proferir a seguinte frase:
- Isto só pode ser gozo!
Frise-se que, apesar de todas as infracções - desrespeito de um sinal vermelho, fuga à autoridade e 0.6 gramas por litro de alcoolemia, a razão parecia estar toda do lado dos infractores.
- Senhor guarda, queria que eu abandonasse o meu amigo? Acha isso correcto? E digo-lhe mais, em Espanha e em Itália ninguém usa capacete! – argumentava, exaltado, o sobrinho-neto da velhinha.
- Eu nem estou a ouvir o que o senhor está a dizer! - respondia, pacientemente, o agente da autoridade.
Após lhe serem apresentados todos os documentos requeridos, o agente autuante avisou o sobrinho-neto de que este seria notificado em breve, acrescentando:
- Eu até lhe desculpava tudo, mas isto é que eu não posso desculpar! – desabafou, em tom de remate, enquanto apontava, inconformado, para o tacho que o Caminha teimosamente mantinha na cabeça.
- E livre-se de, depois de arrancarmos, voltar a dar boleia ao seu amigo!
Ouvindo isto, e na iminência de ficar sem transporte a uma distância considerável do centro de Aveiro, o Caminha ousou ainda indagar:
- Para onde é que o senhores guardas vão?
Foi surpreendente a rapidez com que os agentes entraram atabalhoadamente no carro, no intuito de se furtarem a tão melindroso pedido.

Decorridos alguns meses, o sobrinho-neto da velhinha recebeu uma carta requerendo a sua presença na esquadra local, para efectuar o pagamento de uma multa no valor de 7 500$00. Tendo feito questão de assumir o pagamento integral da multa e após ter perdido a primeira guia de pagamento, o sobrinho-neto pensou para consigo mesmo:
- Estou com esta trabalheira para pagar a merda da multa, provavelmente vou ouvir um sermão de uma mulher polícia e o Caminha fica em casa a coçá-los? Não está correcto…
Ocorreu-lhe então a ideia de redigir uma carta convocando o Caminha para comparecer no tribunal, às 09h00 da manhã de uma segunda-feira. Depois de ter obtido um envelope autêntico do Tribunal Judicial da Comarca de Aveiro e de ter forjado o papel timbrado (com a preciosa ajuda do Cunha), a carta foi enviada a quem de direito, exigindo a sua presença em tribunal, acompanhado do robusto tacho e respectivos atilhos.
Escusado será dizer que o Caminha, ocupado em recuperar de mais uma noitada de “Bridge”, não ligou à convocatória, obrigando o sobrinho-neto a redigir, passados oito dias, uma segunda convocatória mais convincente (leia-se, mais ameaçadora).
Não estando disposto a desembolsar 20 000$00 (ou 200 finos, a preços de 1994), o homem do tacho começou a evidenciar sinais de preocupação. Entretanto, os seus colegas de casa, já ao corrente de tudo, iam mantendo o sobrinho-neto informado:
- Nem vais acreditar! O gajo, no outro dia, andava doido à procura do tacho nos armários. Depois de o encontrar e de confirmar que os atilhos ainda estavam presos às asas desabafou, com um misto de raiva e de alívio, que já tinha tudo o que os cabrões queriam.

No dia marcado pela convocatória, o sobrinho-neto e alguns amigos encontraram-se (após uma festa de carnaval, bastante mal dormidos) no café “Majestic”, com vista para o tribunal, à espera do Caminha que, desta feita, e apesar de também se encontrar bastante mal tratado, chegou ao tribunal à hora estipulada. Tiveram assim o privilégio de o ver entrar no tribunal, apressado, bem penteado, provavelmente remeloso e com bafo a alcóol, com um pequeno saco de cabedal em forma de croquete contendo o tacho que ambicionou ser capacete.

Decorrida uma hora, o Chico Leal decidiu, mais por curiosidade do que por preocupação, ir ver o que se passava. Quinze minutos depois entrava afogueado no café Majestic dirigindo-se ao familiar da velhinha:
- É melhor ires lá, pá! O gajo está fechado numa sala com um juiz e um polícia há uma data de tempo!
Acedendo ao pedido e verificando que ainda guardava num bolso o farfalhudo e queirosiano bigode postiço que tanto êxito obtivera na festa carnavalícia da véspera, o sobrinho aprestou-se a aplicá-lo, entrando no tribunal rudimentarmente disfarçado. Ao entreabrir a porta da secretaria, avista de imediato o Caminha, que falava com duas funcionárias. Introduzindo a cabeça pela porta entreaberta, atirou, enquanto repuxava o bigode:
- O que se passa?
Seria de esperar que, ao ver o sobrinho-neto, o condutor da mota que o transportara na noite em que a lua se fez tacho, o Caminha lhe perguntasse se não tinha, também ele, recebido qualquer convocatória, pedindo-lhe, eventualmente, ajuda. Mas não… Olhando para o sobrinho (e ignorando completamente o seu bigode) ordenou-lhe simplesmente:
- Vai-te embora, pá, que eles andam à procura do processo!
Acatando religiosamente a ordem dada, o sobrinho-neto abandonou, incrédulo, o tribunal, desabafando com o seu bigode:
- Se não quer ajuda, que se lixe!
Depois de contar o sucedido aos restantes carrascos que esperavam ansiosamente no café, todos se dirigiram para a entrada do “Domus Iustititae”, na esperança de ver o Caminha sair algemado. Ao constatarem que este abandonava o edifício como homem livre, abraçaram-no à vez, em apoteose, como se de um réu inocentado se tratasse.
Esboçando já um ténue sorriso, o Caminha dirigiu-se ao sobrinho-neto:
- Estás lixado! Os gajos disseram que vão abrir um investigação porque alguém falsificou documentos!

Minutos mais tarde, demonstrando grande capacidade de encaixe, o Caminha contou o que se passara no tribunal:
- Vocês nem vão acreditar! À entrada do tribunal estava de plantão um polícia, um gajo novo, que eu conheço da noite. Quando ele me perguntou o que é que eu vinha fazer ao tribunal e eu lhe respondi que tinha sido apanhado de mota com um tacho na cabeça e que o tribunal pretendia, desta feita, analisar o objecto metálico e de forma circular, quase pediu para ser substituído no turno, tal foi o choque! Subi as escadas e encontrei a sobrinha do Candal, advogada aqui em Aveiro, que é casada com um amigo meu de Caminha. Leu a carta por alto e perguntou-me, preocupada, se eu já tinha faltado a alguma convocatória. Disse-lhe que sim e avisou-me que isso era gravíssimo, oferecendo-me logo ali os seus préstimos. Na secretaria, mostrei o BI e a convocatória. Como é que um singelo papel pode causar tanto transtorno é que eu não sei! Eram as funcionárias todas em alvoroço, à procura do processo. Uma hora depois, uma delas voltou a olhar para o meu BI e, depois de reparar que eu era de Caminha, começou a olhar com atenção para a assinatura do oficial de justiça, afirmando que não lhe era estranha, que era de um tal Doutor Costa, que já não trabalhava no tribunal por ter regressado a Caminha. Vê lá bem como o mundo é pequeno! Então não é que eu conheço o gajo? Só depois de verificarem que a assinatura não existia é que começaram a colocar a hipótese de a carta ser falsa. Falaram umas com as outras e decidiram mandar-me embora, dizendo que o caso ia ser investigado.

Até hoje, não houve qualquer desenvolvimento do assunto nem qualquer tentativa de vingança por parte do bom amigo Caminha.