
Ao encontrar dentro de um velho dossier
(que jazia clinicamente morto numa estante do “Rugby Clube
de Coimbra”) dois recibos em que os Bombeiros Voluntários
de Coimbra atestavam que Amândio Boaventura Figueiredo efectuara
o pagamento de dois anos de quotas a favor daquela associação,
o sobrinho-neto da velhinha pensou de imediato: “Estás
lixado, Gordo!”
Acabara de lhe ocorrer a maquiavélica ideia de acusar Mandito
de falsificação de documentos e consequente evasão
fiscal.
Depois de redigir uma carta,
cuidadosamente colocada dentro de um envelope genuíno das
Finanças, o sobrinho-neto enviou-a, devidamente registada,
ao contribuinte Mandito. Após efectuar o levantamento da
carta nos correios do bairro e, uma vez na posse da missiva, Mandito
teve a infeliz ideia de a ler, transformando-se, num ápice,
no “Toiro enraivecido”. Ouviu-se, então, uma
saraivada de impropérios no interior do seu apartamento,
que terão culminado com a seguinte frase lapidar: - Eu
arranco-lhes a cabeça!
Visivelmente impressionada com a cena que acabava de presenciar,
a pequena filha de Mandito perguntou, atemorizada, ao seu progenitor:
- Ó paizinho, mas tu vais mesmo arrancar-lhes a cabeça?
É que carta mais ofensiva e mais repleta de dislates nunca
tinha Mandito lido nos dias da sua vida. E o motivo não
era para menos!... Então não é que o Chefe
da 2ª repartição de Finanças, de seu
nome Martins, garantia que, e atente-se na citação:
“…viemos a apurar, através de inquérito
oportunamente realizado na secção de agulhetas de
alta pressão, que V. Exª não é, nunca
foi, nem tenciona vir a ser, sócio daquela instituição”,
acrescentando ainda que, e pasme-se: “...pretendia V. Exª
deduzir, em sede de IRS, com a junção destas declarações,
a mísera quantia global de sete mil escudos”. Por
fim, o vil chefe da repartição atrevia-se ainda
a realçar “…a má qualidade da falsificação
da assinatura constante dos documentos.”.
Mandito teve ainda sangue-frio para contar tudo por telefone a
um distinto advogado seu amigo que, à medida que lhe era
revelado o conteúdo da carta, se limitava a repetir, entre
o aturdido e o indignado: - Eles não podem dizer isso!
Eles não podem dizer isso!
Na véspera do dia agendado para Mandito comparecer nas
Finanças, o sobrinho-neto da velhinha deslocou-se ao Rugby
Clube de Coimbra, onde decorria uma reunião da direcção
da secção de rugby da AAC, na qual Mandito estava
presente, tendo o prazer de escutar, numa sala contígua,
o seguinte diálogo entre o tesoureiro da secção
e a vítima:
- Os gajos da tesouraria da Associação Académica
não estão a aceitar alguns dos recibos que estamos
a apresentar-lhes... Detergentes, iogurtes, pensos higiénicos.
- Esses cabrões são quase tão chatos como
os gajos das Finanças, que me acusam de falsificar recibos!
Depois de contar a “galga” a alguns dos seus amigos
mais próximos, que também se encontravam no local,
o sobrinho foi veementemente aconselhado por estes a não
deixar o contribuinte desonesto deslocar-se às Finanças.
Acedendo a tais pedidos, resolveu então contar tudo ao
“Toiro enraivecido”.
Hoje, à distância de alguns anos, o sobrinho-neto
da velhinha pede desculpa por ter tomado tal atitude, sentimento
de culpa que recrudesceu de intensidade após ter colocado
a seguinte pergunta ao avantajado sócio dos bombeiros:
- Se eu não te tivesse dito nada, o que é que tinhas
feito, Gordo?
- Primeiro tinha ido aos bombeiros, à procura do tesoureiro,
e perguntava ao cabrão como é que os meus recibos
tinham ido parar às mãos das finanças! Depois,
agarrava-o pelas orelhas e ia com ele às Finanças.
Se encontrasse lá algum Martins, matava-o!
Sim senhor, o que nós perdemos!…