
Em Julho de 2003, encontrando-se
o sobrinho-neto da velhinha a passear na cidade de Coimbra, na companhia
de seu pai (por exclusão de partes apenas sobrinho da velhinha),
este dirigiu-se-lhe suplicando-lhe: - Jamais, mas jamais, compres
o que quer que seja numa loja com este nome!
O pomposo nome da loja de pronto-a-vestir “Eterno Terno”
conferia ao pai do sobrinho-neto da
velhinha total legitimidade para tão grande dose de indignação.
“Eterno terno”? Imagine-se o nome do franchising
de uma marca deste calibre em França (“Toujours Terno”)
ou em Inglaterra (“Forever Terno”).
Por um infeliz acaso do destino o estabelecimento comercial em épigrafe
era, imagine-se, pertença de dois bons amigos do sobrinho-neto
da velhinha, os senhores Jorge Silva e Zé Varandas. Envergonhado,
não conformado com a humilhação a que os amigos
Jorge e Zé o sujeitaram, e tendo em conta a chacota de que
foi alvo por parte do seu agregado familiar, o sobrinho-neto decidiu
vingar-se.
Resolveu instituir para o efeito o prémio “Melhor Designação
de Firma 2002”, promovido pelo Registo Nacional de Pessoas
Colectivas (RNPC), através do qual esta instituição
premiava os legais representantes de 9 empresas cujos nomes se tivessem
destacado pela sua manifesta originalidade.
Através de carta
devidamente timbrada e cuidadosamente remetida por terceira pessoa
a partir de Lisboa, o sobrinho-neto informou o Zé Varandas
de que a sua valorosa firma havia sido alvo de tão nobre
distinção. Perante a ausência de qualquer tipo
de reacção por parte do destinatário - que ignorou
pura e simplesmente a missiva -, foi enviada uma outra
carta, com maior soma de pormenores, ao outro sócio,
o Jorge Silva, economista de formação que, habituado
a gerir minuciosamente as contas da Secção de Rugby
da AAC e a dar o devido valor ao metal sonante, não menosprezaria,
certamente, tão chorudo prémio. O sobrinho-neto não
se enganou! Depois de ler a carta, o Jorge consultou de imediato
a fidedigna página
electrónica oficial do concurso “Melhor designação
de Firma 2002”, para logo declarar, indignado: - Foda-se!
Se para o Zé Varandas 2000 euros não é dinheiro,
para mim é!
Dois dias antes da data limite para o levantamento do prémio,
o "Senhor Silva" aprestou-se a arranjar boleia para se
deslocar a Lisboa, arrancando logo pela manhã para a capital
na companhia de dois directores da Secção de Rugby
da Associação Académica de Coimbra (que aí
se deslocavam por outros motivos), munido da preciosa carta que
lhe permitiria resgatar o pecúlio virtual que, julgava ele,
por direito próprio lhe pertencia. Durante a viagem, o premiado
efectuou uma série de telefonemas para o RNPC, com o intuito
de obter informações mais precisas em relação
ao prémio que lhe coubera em sorte. Como seria de esperar,
os primeiros telefonemas apenas lhe permitiram calcorrear, sem qualquer
efeito prático, alguns degraus do organigrama do RNPC, uma
vez ser do desconhecimento geral a existência de qualquer
tipo de concurso.
De acordo com o posterior relato de um dos seus acompanhantes, ao
sexto ou sétimo telefonema, evidenciando já alguma
saturação e seguro de que a sua voz se tornara familiar
para os funcionários do RNPC, o "Senhor Silva"
passou a dispensar qualquer tipo de apresentação,
dando início às conversas telefónicas da seguinte
forma: - Está? Sou eu! Quando questionado pela enésima
vez por um dos funcionários do RNPC sobre o nome da empresa,
o furibundo empresário respondeu, mais uma vez, “Eterno
Terno”. Ouvindo risos trocistas do lado de lá da linha,
não hesitou em perguntar, em tom intimidatório:
- Ora então diga lá de que é que se está
a rir, que é para ver se nos rimos os dois!
Ainda inconformado com o facto de o prémio de 2000 euros
lhe estar irremediavelmente a escapar por entre os dedos, o "Senhor
Silva" conseguiu, finalmente, chegar à fala com o topo
da pirâmide hierárquica do RNPC, tendo-se então
encetado o seguinte diálogo, em forma de epílogo:
- Olhe, minha senhora, vou-lhe ditar o endereço do “side”
onde vêm anunciados os prémios, para poder verificar!
- Não é “side”, Jorge! É “site”!
- interveio Jaime “Baco” Carvalho, um dos acompanhantes,
já ao corrente de toda a tramóia e que ia mantendo o sobrinho-neto
permanentemente informado dos acontecimentos através de mensagens
SMS.
Após consultar o referido “site”, a funcionária
do RNPC limitou-se a pedir ao "Senhor Silva" para ler
novamente os nomes das empresas premiadas, acrescentando em seguida:
- O senhor já reparou bem no nome das empresas?
- Pois é!... - aquiesceu o ex-premiado, caindo em si, com
a listagem dos nomes em sua posse e olhando, provavelmente, para
o invulgar nome da creche “Bolsar de Bebé” (premiada
na ocasião com 1500 euros), para o assustador nome do ginásio
“A Hérnia Discal” (ao qual coube em sorte 3500
euros) ou pensado o quanto lhe faria bem, depois de toda esta agitação,
uma relaxante massagem na "Dancing Club/Casa de Massagens -
A Pérola da Marateca" (empresa que a brincar e a rir
arrecadou 3000 euros!).
- Essa página é falsa! Vamos ver o que se passa! -
respondeu a funcionária do RNPC, pondo assim fim a uma sucessão
de telefonemas que se arrastaram por bem mais de uma hora.
No regresso a Coimbra, o Jorge admitia já, com alguma dose
de inconformismo mas com bastante desportivismo, ter sido ludibriado,
proferindo, repetidamente, uma frase onde era denunciado o principal
suspeito:
- Isto só pode ter sido o sobrinho-neto da velhinha, esse
grande cabrão! Ele que não atravesse a estrada nas
passadeiras...
|