
Foi de uma forma profundamente lamentável que o Ricardo
Martinho, vulgo Ninja, decidiu cancelar, apenas a duas semanas
da partida, a sua ida aos Jogos Olímpicos de 2000 em Sidney
ignorando, quer o convite que lhe foi endereçado, no ano
anterior, por um amigo australiano, quer o esforço financeiro
efectuado pelo sobrinho-neto da velhinha, que supostamente acompanharia.
Pensou certamente o incauto Ninja que tal atitude passaria impune.
Puro engano! Decorridos dois anos sobre o evento, a vingança
(de cigano, porque tardia e pensada) concretizou-se finalmente,
tendo o sobrinho-neto decidido, perante a apatia das entidades
competentes, fazer justiça pelas próprias mãos,
recorrendo, para o efeito, a um grupo
de capangas, seus amigos “del pecho”.
No fatídico dia, a concentração teve lugar
no café “Ritz”, onde os carrascos
(alguns deles aquecendo já os nós dos dedos)
se encarapuçaram e vestiram a preceito com barretes de
Pai Natal cobrindo a cara toda (com dois buracos para os olhos)
e “t-shirts” tamanho S, com um Zé Povinho do
Rafael Bordallo (com o habitual enterlaçar de braços)
estampado e uma inscrição “NINJA: CÁ
SE FAZEM, CÁ SE PAGAM!”. Dirigiram-se, em seguida,
para o local do “linchamento”, o bem frequentado Café
“Avenida”. Logo divisaram a vítima no interior
do movimentado café, sentada de costas para a porta, a
contar, ufana, mais uma “galga” a um grupo de amigos.
- Vamos a isto! - ordenou, convicto, o carrasco mentor.
O “serviço” começou por assumir, de
forma algo assustadora, contornos idênticos ao do impressionante
linchamento do “Mea Culpa” (faltando apenas os fósforos
e a gasolina), a avaliar, desde logo, pelas palavras pronunciadas
por um dos executantes, enquanto fechava a porta do café:
- Ninguém entra! Ninguém sai! Ninguém se
mexe! Isto é uma brincadeira!
Mas era uma brincadeira que poderia ter-se transformado numa valente
cena de bofetada, caso a “betada” do Avenida tivesse
decidido, num miraculoso acesso de coragem, intervir em socorro
do Ninja.
Depois de lhe serem vertidos dois finos em cima da cabeça
- com o intuito de lhe assegurar que a situação
em que se encontrava era, efectivamente, real - a incrédula
e estarrecida vítima, já apenas habilitada a pronunciar
monossílabos (hã... ó... eu...) foi transportada
para o exterior do café, não sem antes ter sido
forçada a “chafurdar” no capacho da entrada,
ao som dos grunhidos de tão mal intencionados Pai Natais,
que se abstinham de falar, permanecendo no anonimato.
Transportado até à montra de uma casa de máquinas,
paredes meias com o café, o Ninja foi convenientemente
algemado
à grade de protecção da montra - que, por
esta altura, se assumia já como um verdadeiro pelourinho
- tendo os algozes recorrido, para o efeito, a um par de algemas
da brigada anti-crime da “Judite” (material, portanto,
de superior qualidade).
Já convenientemente algemada, a vítima foi esbofeteada
entre 3 a 7 vezes, procurando ridiculamente justificar a sua ausência
em tão memorável viagem da seguinte forma:
- Ó pá, não fui a Sidney porque... porque...
não pude!
A clientela do café, que se aglomerava já no exterior,
olhava incrédula para o que via, tal a crueza e veracidade
da cena. Arrependido e resignado, o Ninja confessava a alguns
dos seus amigos que lhe perguntavam, aturdidos, o que se passava:
- Isto foi Sidney... eu devia ter ido a a Sidney!
Condene-se, desde já, a total falta de misericórdia
dos carrascos que, perante os insistentes pedidos da vítima
- Libertem-me, pá, que já tenho o pulso inchado!
- se limitaram a virar-lhe costas, deixando-o em exibição
na via pública, qual gorila em jaula de zoo rodeado por
crianças de jardim-escola.
Enquanto se afastavam, ainda puderam ouvir as furibundas palavras
de uma amiga do Ninja:
- Que ricos amigos que tu tens! Fazem-te isto e dizes que são
teus amigos?
De acordo com relatos posteriores, o humilhado Ninja foi libertado
apenas duas horas depois de tão constrangedor cativeiro,
pelos sempre disponíveis bombeiros, que se limitaram a
serrar a corrente que une as argolas das algemas.
Receando granjear a alcunha de “Pombo-correio“, a
vitima dirigiu-se de imediato para a esquadra da polícia
para que, finalmente, lhe fosse retirada a “anilha”
que lhe ornamentava o pulso. O pesadelo tinha terminado!...